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23.10.11

A Lei

O conceito de pós-modernismo é confuso e estrábico - normalmente usado pra fazer críticas ao sistema egoísta e hipócrita de hoje em dia ou pra difundir previsões apocalípticas sobre determinada ação do governo, do povo ou de alguma celebridade - mas tem determinadas coisas que todo mundo concorda. Uma delas é de que vinculado ao pós-modernismo existe um certo relativismo: cada um entende o que lê conforme lhe convém, conforme lhe está na cabeça.

Na igreja a Bíblia é interpretada de todo jeito. Tem igreja que prega prosperidade, tem igreja que prega uma infinidade de regras e tem, inclusive, igreja que não prega nada.

Uma série de acontecidos me fizeram pensar na Lei. Não a Bíblia como um todo, ou o pentateuco, ou os 10 Mandamentos, mas especificamente aquilo que eu preciso fazer pra ir pro céu.

Os luteranos - e os assembleianos normalmente, apesar de na Assembleia de Deus não haver doutrinamento firme - pregam que a lei foi vencida e abolida por Jesus e que, se eu quiser ser salvo, basta a Graça de Deus. Porém, conforme os desdobramentos de Paulo, é necessário que exista uma 'santificação' pra que sejamos aptos a entrar no céu: tanto é que na carta aos Gálatas ele cita um número bem grande de atitudes que certamente não conduzem ao céu (prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas... e assim por diante - não me preucuparei com as definições estritas desses conceitos e, sinceramente, acho que nem Paulo estava preocupado). Paulo chega a dizer assim: "vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis, então, da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pela caridade.". Conforme o Duílio, um amigo que estuda teologia, Lutero preveu isso... mas como os luteranos normalmente não leem Lutero, existe um tipo de 'distorção da doutrina'.

Santificação é um conceito bem simples e que todo mundo concorda que é "ir passando a se comportar com cada vez menos pecados", apesar de todo mundo saber que sem pecados, só Jesus. Porém, o conceito de pecado fica um pouco 'embassado' nessa história. Se abolimos a Lei, como sabemos o que é pecado?

A Lei, a de Moisés, parece ser um desdobramento temporal para os judeus em seus primeiros anos de povo, para que não houvesse muita discussão sobre o que era e o que não era certo. Isso porque acho que qualquer um deve concordar que 10 axiomas - os 10 Mandamentos - dariam espaço pra muita discussão se Moisés não houvesse intervido.

Jesus veio e resumiu a Lei em dois princípios: 1)amar a Deus acima de todas as coisas; 2)amar ao próximo como a si mesmo. Mas isso não quer dizer que os Mandamentos estivessem abolidos: na verdade os Mandamentos eram a forma mais precisa de como as pessoas poderiam crumprir esses dois princípios.

Paulo, quando escreveu Romanos, foi bastante minucioso em relação a Lei - outro dos apóstolos até chegou a advertir a Igreja contra aqueles que distorciam suas palavras, visto que eram bastante complexas. Quando eu estava estudando filosofia cheguei a ter a descrição do meu perfil no orkut com o texto de Romanos 7, do verso 7 ao 25. Mas o caso é que provavelmente eu nunca entendi 100% do que ele quis dizer em Romanos. A parte que me encomodava especificamente era o versículo 31 do capítulo 3: "anulamos, pois, a Lei pela fé? De maneira nenhuma! Antes, estabelecemos a Lei."

Como meu pensamento de leitura era voltado ao ideal luterano de anulação da Lei, essa passagem me saltava como "surpreendente". Tipo "como assim?! anulamos a Lei sim senhor!" era o que eu pensava. O caso é que a Lei, mais especificamente os 10 Mandamentos, são aquilo que definem o pecado. Como Paulo diz na passagem que eu usei como descrição no meu perfil, "eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. [...] Assim a lei é santa; o mandamento, santo justo e bom".

As referências aos Mandamentos não ficam só por aí. Assim como Paulo, João diz em suas cartas a Igreja que o Mandamento que ele dá é o mesmo de sempre, o antigo; Davi exalta a Lei em vários de seus salmos e Jesus, ora vejam só, cumpre a Lei.

Uma distinção importante para essa questão, e que eu não posso deixar de comentar é a distinção da lei de Moisés e da Lei maior, os Mandamentos. Como eu disse antes, a lei de Moisés parece ser um desdobramento temporal mais específico para os judeus. Tanto é verdade - ou pelo menos me parece verdade - que no livro de Atos (que eu sinceramente gostaria de chamar de Lucas 2) os cristãos entram em debate sobre o que os gentios convertidos deveriam guardar acerca da lei (capítulo 15). A conclusão: "abstenham-se das contaminações dos ídolos, da prostituição, da carne sufocada e do sangue. Porque Moisés, desde os tempos antigos, tem em cada cidade quem o pregue e, cada sábado, é lido nas sinagogas."

Dá pra ver que os mandamentos, a que eles se referem como "Moisés" nesse caso, eles tinham quem ensinasse... o problema era entender o que precisava ser cumprido e o que não era. Se Moisés significasse a Lei de Moisés (as 500 e poucas leis do pentateuco), eles teriam que se circuncidar, porque Moisés colocou isso em sua Lei, e foi isso que criou a discussão. Assim, ficamos entendidos que os Mandamentos devem ser cumpridos, e o cumprimento da Lei de Moisés fica resumida a aquelas indicações do parágrafo anterior.

O grande inconveniente dessa discussão toda está num dos mandamentos, o guardar o Sábado. Os Mandamentos são a Lei que Deus escreveu com Seu próprio dedo (ou Sua caneta Divina, tanto faz). Portanto, pelo menos certo "peso" deve haver em guardar o Sábado, visto que não Moisés, mas Deus, sugeriu esse feito.

Alguns avulsos argumentam que Deus estava na verdade dizendo que certo dia, seja lá qual for, deveria ser dedicado a Ele. Os católicos, baseados nas palavras de Justino, um dos "pais da igreja Cristã", do século II depois de Cristo, guardam o Domingo, visto que Cristo ressucitou nesse dia. Conforme Justino:


“Reunimo-nos todos no dia do Sol [o primeiro dia da semana era denominado de dia de Sol no Império Romano até o século IV], não só porque foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, criou o mundo, mas também porque neste mesmo dia Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos. Crucificaram-no na véspera do dia de Saturno; e no dia seguinte a este, ou seja, no dia do Sol, aparecendo aos seus apóstolos e discípulos, ensinou-lhes tudo o que também nós vos propusemos como digno de consideração” (Justino I – Apologia Cap. 66-67 : PG 6,427 - 431).
[retirado da wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Justino]

Os evangélicos, acho que até pela falta de firmeza estrutural de algumas denominações, simplesmente abominam quem guarda o sábado por ser "coisa de adventista" (alias, abominam os adventistas também) e ignoram que guardam o domingo. Inclusive, acho que muitos dos evangélicos não sabem que o sábado está nos Mandamentos - e isso não é um insulto e sim uma constatação, visto que eu também faço parte dos evangélicos.

Se o leitor guarda o domingo baseado na afirmação de que foi o dia em que Jesus ressucitou, não há contradição nenhuma em seu pensamento... apenas um problema de 'ortodoxia': essa atitude não consta na Bíblia e não é ensinada por nenhum apóstolo ou escritor do novo testamento (pelo menos até onde eu sei). Já eu, se me permite, estou cada vez mais inclinado a acreditar que Deus, ao se referir ao Sábado, estava falando do Sábado mesmo, da mesma forma que estou inclinado a acreditar na literalidade do dilúvio, acreditar na criação em sete dias, acreditar que as espécies têm cerca de 10.000 anos, etc. Isso porque as conclusões da ciência sobre esses assuntos normalmente são controversas, indutivas, com muitas extrapolações teóricas de modelos que podem com muita chance não estarem corretos... enfim. Para mim, e para um número cada vez maior de gente, as conclusões científicas parecem sofrer variações de cunho ideológico/político que comprometem as verdades por trás dos dados. Porque o que é ciência? uma coisa são os dados que se obtem através dos experimentos, o que ninguém discute; outra coisa são as conclusões que se tira desses experimentos, o que é extremamente controverso. Como disse Pascal, "quase que invariavelmente as pessoas formam suas crenças não baseadas nas provas, mas naquilo que elas acham atraente".

Enfim, voltando ao Sábado. O Sábado traz outro tipo de discussão: dado que é Lei guardar o Sábado, o que exatamente seria esse "guardar"? O Sábado começa ao anoitecer ou a meia noite de sexta? Boa parte dos sabatistas consideram que é ao anoitecer e, assim, apressam ou otimizam seus trabalhos durante a semana para que sexta não sobre serviço e se possa entrar Sábado para Deus. Mas guardar o Sábado é se envolver em um sem-número de não-podes ou tirar esse dia especialmente pra ficar com a família, passear, ler um livro, descansar, meditar, ler a Bíblia? Não sei quanto ao leitor, mas eu gosto mais da segunda opção, até porque sou averso a idéia limitadora que alguns cristãos têm de colocar etiquetas de "não" em quase tudo por aí.

Mas e se houver uma prova, um concurso? ou se trabalharmos como médicos, que não tem hora pra fazer plantão? ou se alguma circunstância nos coloca em necessidade da fazermos alguma atividade no Sábado. Alguns dos sabatistas abrem mão de diversas atividades por estarem contidas no Sábado. O vestibular da UFRGS, por exemplo, começa no domingo para que os adventistas possam participar - apesar de ser o dia sagrado dos católicos, eles parecem não se importar. No ENEM, ao que me disseram, alguns sabatistas entraram no sábado para fazer a prova junto com os outros mas ficaram na sala esperando um 'horário especial', na noite de sábado (que, lembre-se, para eles já é domingo), para começar a prestar o exame.

Sinceramente, eu acho isso complicado. Como diz a Bíblia, o Sábado foi feito para o homem e não o homem para o Sábado. Pra mim envolve muito uma questão de religiosidade. Eu, por exemplo, estou cogitando o guardar o Sábado faz algum tempo mas, como peguei uma cadeira esse semestre sexta de noite, vou continua-la até o fim. Semestre que vem eu não pego nada sexta de noite, ou faço o meu Sábado valer a partir da meia noite só. O importante acho, pra Deus, é meu interesse de guardar o dia dEle. A Bíblia é cheia de conceitos não extritamente definidos acho que em parte porque Deus quis permitir que nossa própria consciência, moldada pelo Espírito Santo, delimitasse-os.

Ficar o dia todo dentro de uma sala esperando chegar de noite pra poder fazer a prova sábado de noite parece mais perda de Sábado do que fazer mesmo a prova no Sábado. Esse comportamento em muito se assemelha com o daquele casal de crentes, que namora só alguns meses e já casa logo, para poder fazer sexo. Poxa, então faz sexo de uma vez... porque esse casamento tem muita chance de dar errado mesmo. Parece ser tapar um buraco com terra de outro. Acho que Deus é razoável o suficiente pra entender que, não havendo oportunidade de fazer a prova outro dia, a pessoa não teve muita escolha.

Não estou criticando levianamente quem fica lá esperando até de noite. Admiro a determinação do cara. Por Deus, que não é pouca coisa, ele aguarda hoooooooras de tédio (e é chato ficar olhando pras paredes a tarde toda) pra fazer uma prova. Só acho que é um esforço semelhante ao daquelas irmãs que não cortam o cabelo (baseados numa má interpretação do livro de Coríntios): uns fazem, outros não: quem faz, faz pra agradar a Deus, e Deus aceita; que não faz, faz porque tem liberdade em Deus, e Deus compreende (conforme Paulo em Romanos).

Enfim. Admito que já me estendi demais. São duas horas da manhã e eu estou com sono. Essas são reflexões incompletas e é muito provável que daqui a um mês eu já esteja pensando bem diferente. Quem me conhece um mínimo sabe quão volátil são minhas idéias. Mas pelo menos não me submeto a nada que minha consciência condene, que é como Lutero faria.

[o que me dá mais nos nervos é citar essa imensidão de filósofos, teóricos e personagens Bíblicos e fazer pouquissimas ou nenhuma referência a Jesus... até pareço com aqueles outdoors de igrejas neopentecostais sobre cultos de vitória com pastor XYZ - nunca vi o nome de Jesus escrito ali, nem que seja num pequeno letreirinho.]

Paztejamos

Um comentário:

  1. Paz meu querido, quanto tempo!
    Se puder, vai lá e dá uma olhadinha no meu novo blog:
    Temos muito material que vai te edificar.
    Paz.

    http://coisasdocaminho.blogspot.com

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